Na eleição de 2018, um dos grandes destaques do debate presidencial foi o momento em que o candidato Ciro Gomes mencionou o número de brasileiros endividados, que chegava a 63 milhões, segundo dados da Serasa Experian, empresa especializada em dados e análises para decisões de crédito e apoio aos negócios.
Nas eleições de 2026, alguns candidatos voltaram a debater o mesmo tema. O número, que era de aproximadamente 63 milhões de brasileiros em 2018, chegou, em 2026, a cerca de 83 milhões de pessoas inadimplentes, segundo dados da Serasa Experian. Isso representa um aumento de aproximadamente 20 milhões de pessoas nesse período.
Em termos percentuais, cerca de 82% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, o que corresponde a aproximadamente oito em cada dez lares, conforme dados divulgados em meados de 2026.
Os números mencionados assustam e geram algumas controvérsias em relação ao significado das palavras. Afinal, o mais correto seria dizer que essas pessoas estão endividadas ou inadimplentes?
O fato de utilizarmos o cheque especial ou atrasarmos, ainda que temporariamente, o pagamento de contas básicas, como água, luz, telefone, condomínio, aluguel e financiamento, entre outras, não significa necessariamente que estamos com o nome negativado, ou seja, com restrições nos órgãos de proteção ao crédito.
Já as pessoas que deixam de honrar seus compromissos financeiros e têm suas dívidas registradas nos cadastros de inadimplentes são consideradas inadimplentes e podem ter o nome negativado.
É importante destacar que estar endividado não significa, necessariamente, estar inadimplente. Uma pessoa pode ter financiamentos, empréstimos e outras obrigações financeiras em dia. A inadimplência ocorre quando há o descumprimento de uma obrigação no prazo estabelecido.
O desafio da educação financeira no Brasil
Em minhas palestras de Educação Financeira, que ministro pelo Brasil, deparei-me com um grande desafio relacionado às finanças pessoais.
Em certa ocasião, participava de um encontro com um grupo de casais e seus respectivos filhos quando perguntei aos presentes qual era a maior dificuldade enfrentada pelas famílias.
Para minha surpresa, um percentual bastante significativo apontou as dificuldades financeiras como o principal problema. Na ocasião, 82% das famílias participantes relataram enfrentar dificuldades nessa área.
Analisando esse contexto, concordo com uma afirmação do nosso ex-vice-presidente da República, durante o primeiro mandato do governo Lula, o já falecido José Alencar. Ele costumava destacar que “o consumidor é incauto”, isto é, age sem a devida cautela, precaução ou cuidado, podendo ser desprevenido, imprudente ou ingênuo. Também ressaltava a dificuldade das pessoas em calcular juros e a pouca familiaridade com os números.
Essa entrevista de José Alencar, à época, evidenciava uma dificuldade enfrentada por muitos brasileiros: a falta de conhecimento e habilidade para administrar os poucos recursos financeiros disponíveis.
Quando decide comprar um bem durável, o consumidor brasileiro, muitas vezes, preocupa-se mais com o valor da prestação do que com os juros que pagará ao longo do financiamento. Compara o valor da parcela com o salário recebido, em vez de avaliar quanto realmente sobra depois de descontadas todas as despesas essenciais.
Esse é um dos grandes erros no planejamento financeiro pessoal: assumir compromissos sem considerar a renda disponível e a capacidade efetiva de pagamento, especialmente quando, ao final do mês, praticamente nada sobra do salário.
Desenrola: solução para a inadimplência?
Em 2023 e 2024, na primeira edição do programa Desenrola Brasil, o Governo Federal previa beneficiar milhões de brasileiros com a renegociação de suas dívidas. Segundo os números apresentados no debate sobre o programa, a expectativa era alcançar 30 milhões de pessoas, mas o resultado ficou em aproximadamente 15 milhões, o equivalente a 50% da meta inicialmente projetada.
Entre os fatores apontados para esse resultado estavam as dificuldades de acesso e os entraves burocráticos enfrentados por parte da população.
Posteriormente, novas iniciativas de renegociação de dívidas buscaram ampliar o acesso dos consumidores às condições de pagamento. Essas medidas reforçaram o papel dos bancos e das instituições financeiras na negociação dos débitos e na recuperação do crédito de milhões de brasileiros.
Entretanto, mesmo com a regularização da situação financeira de muitas pessoas, o problema da inadimplência não foi definitivamente resolvido. A entrada contínua de novos inadimplentes contribuiu para a permanência do problema, evidenciando o chamado “efeito rebote”: pessoas que renegociam suas dívidas, recuperam o acesso ao crédito e, posteriormente, voltam a enfrentar dificuldades para honrar seus compromissos.
Esse cenário demonstra que a renegociação das dívidas, embora importante, não é suficiente para solucionar o problema de forma definitiva. Sem mudanças nos hábitos de consumo e sem educação financeira, muitas famílias podem voltar a se endividar.
Por isso, o Governo Federal precisa avaliar continuamente a eficácia das políticas públicas de renegociação de dívidas, associando essas iniciativas a medidas de prevenção ao superendividamento e de conscientização financeira.
Educação financeira: um caminho para mudar essa realidade
O que falta, portanto, é sensibilizar e conscientizar a população sobre a importância da Educação Financeira, especialmente entre crianças e jovens.
Nossa população é constantemente bombardeada pela mídia escrita, televisiva e digital, que, muitas vezes, estimula o desejo de comprar, mesmo quando não há dinheiro disponível para isso.
As facilidades de acesso ao crédito também contribuem para que o consumidor compre sem avaliar se realmente precisa daquele produto ou serviço e, principalmente, se tem condições de pagá-lo.
Antes de assumir qualquer compromisso financeiro, as pessoas precisam refletir sobre algumas questões fundamentais: Eu realmente preciso comprar isso? Tenho condições de pagar? Essa compra comprometerá meu orçamento?
Essas perguntas simples podem fazer uma grande diferença na vida financeira de uma família.
No Brasil, as taxas de juros estão entre as mais elevadas do mundo em determinadas modalidades de crédito, o que torna ainda mais importante compreender o custo do dinheiro e os efeitos dos juros compostos sobre as dívidas.
Nos Estados Unidos, a preocupação com a Educação Financeira também se manifesta por meio de iniciativas institucionais voltadas à alfabetização financeira. O governo americano conta com estruturas de coordenação e promoção desse tema, envolvendo diferentes órgãos e representantes do setor público.
Em 2026, Scott Bessent ocupa o cargo de secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Iniciativas dessa natureza reforçam a importância de tratar a educação financeira como uma questão de interesse público.
O ideal seria que o Brasil avançasse ainda mais nesse sentido, assumindo um compromisso efetivo com a Educação Financeira e ampliando sua presença desde o Ensino Fundamental. Ensinar Economia e finanças pessoais de maneira simples e acessível é uma forma de preparar nossas crianças e nossos jovens para tomar decisões mais conscientes e construir um futuro melhor para nossos filhos e netos.
Educação financeira nas escolas: uma necessidade urgente
Nos últimos anos, diferentes instituições vêm desenvolvendo planos de ação com o objetivo de disseminar a cultura financeira entre a população.
A Portaria nº 723, de abril de 2012, do Ministério do Trabalho e Emprego, estabeleceu diretrizes relacionadas à aprendizagem profissional. Iniciativas dessa natureza se inserem em um contexto mais amplo de preocupação com a formação dos jovens e sua preparação para o mercado de trabalho.
É fundamental que essa preparação também contemple conhecimentos sobre planejamento financeiro, consumo consciente, crédito, juros e administração do orçamento pessoal. Afinal, muitos jovens, logo no início da vida profissional, passam a lidar com compromissos financeiros sem terem recebido a orientação necessária para administrar seus recursos.
Uma proposta importante nesse debate foi o Projeto de Lei nº 7.318/2017, de autoria do deputado federal Pr. Marco Feliciano, que propunha alterações nos artigos 26, 32 e 36 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, com o objetivo de incluir a disciplina Educação Financeira na matriz curricular nacional dos ensinos Fundamental e Médio.
A proposta, entretanto, não se transformou em lei. Essa realidade reforça a necessidade de ampliar o debate sobre a formação financeira dos estudantes e a importância de preparar as novas gerações para lidar com o dinheiro de maneira responsável.
Em minhas palestras, costumo dizer: “O fim depende do começo.”
Se queremos construir uma sociedade financeiramente mais consciente, precisamos começar pela educação. Quanto mais cedo crianças e jovens aprenderem a administrar o dinheiro, compreender os juros, planejar seus gastos e poupar, maiores serão suas chances de evitar o endividamento excessivo no futuro.
Uma reflexão para encerrar
Para concluir, compartilho uma frase de autoria desconhecida que traduz, de maneira simples e direta, um dos grandes problemas relacionados à falta de educação financeira:
“A falta de lucidez financeira é você comprar aquilo de que não precisa, para mostrar a quem não conhece a pessoa que você não é, com o dinheiro que você não tem.”
Artigo escripo por Paulo Silva Santos, Economista | @otimoempreendedor
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